sábado, 18 de novembro de 2017

Samuel foi realmente invocado dos mortos? Uma breve resposta



Quando lemos 1 Samuel 28, temos a impressão de que o profeta Samuel teria de fato sido chamado dos mortos e falado com Saul. Entretanto, entendemos que não foi o que aconteceu.

Seguem três razões porque não era Samuel aquele que foi invocado pela médium:

1. Saul havia se rebelado contra Deus; e Deus não estava lhe respondendo. A passagem bíblica cita pelo menos três meios legítimos de Deus se comunicar com os homens naqueles tempos: sonhos, Urim e profetas (1 Sm 28.6). Deus não respondia Saul por nenhum destes. Por que ele iria responder por meio de uma prática que ele havia proibido, a necromancia? Deus não respondeu a Saul.

2. Em Deuteronômio 18.9-12 Deus proíbe práticas de adivinhação e invocação dos mortos. Não faz sentido pensar que Deus proibiria essas práticas e depois falaria através delas. Não é possível que os mortos se comuniquem com os vivos. É provável que na verdade espíritos malignos se apresentem falsamente como pessoas já mortas.

3. As profecias do falso Samuel não resistem a um exame crítico. Elas são ambíguas e imprecisas. Veja bem:

a. Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (28.12). Ele se suicidou e foi parar nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (31.4, 11-13). Ele apenas “passou” pela mão dos filisteus.

b. Não morreram todos os filhos de Saul (28.19). Pelo menos três filhos ficaram vivos (2 Sm 2.8-10; 21.8) e três morreram (1 Sm 31.2,6; 1 Cr 10.2, 6).

c. Saul não morreu no dia seguinte. Passaram-se cerca de 18 dias, conforme vemos no Capítulo 30 de 1 Samuel.

d. Saul não foi para o mesmo lugar de Samuel (28.19). Conforme vemos em Lucas 16, o salvo ia para o seio de Abraão e o ímpio para um lugar de tormento. Logo não estariam juntos.

Creio que essas são três boas razões para rejeitar a ideia de que Samuel teria voltado dos mortos naquele momento.

Marco Antonio da Silva Filho

--

Recomendo o comentário da Bíblia Shedd sobre essa passagem bíblica. Você pode adquiri-la aqui: Bíblia Shedd

--

Confira outras dúvidas bíblicas:

O que significa INRI? Foi isso mesmo que escreveram?

O uso do véu em 1 Coríntios 11

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O crescimento de uma Biblioteca

Comecei a ter meu próprio dinheiro em 2010, no ensino médio; era monitor do laboratório de informática. A partir daí comecei a comprar livros. A maioria deles de teologia, principalmente da área de apologética.

Tenho uma foto de 2011, uma pequenina coleção que tinha alguns livros ainda do meu pai.



Em 2013, a quantidade já era bem maior e eles ganharam uma estante. Mas ficavam "deitados".



Em 2014, fiz um "arranjo" na lateral da estante e consegui deixar eles "em pé".



Em 2015, já não cabiam mais na estante, tinha que deixar na mesa da cozinha, o que incomodava muito minha mãe 😅. E a estante não era muito boa e ficava ameaçando cair, não importa o quanto apertasse os parafusos kkk



As coisas ficaram ainda melhores em 2016, mudei de casa e de estante. Ficaram bem mais arrumadinhos.



Finalmente, em 2017, "feirões", "black friday" e promoções fizeram a estante ficar bem mais cheinha...



No momento, não estou podendo comprar mais nada, mas quando olho pra estante, vejo um fruto desses anos de monitoria, estágio, emprego, bolsa....  vejo que fiz um bom investimento. É uma imensa riqueza o que a leitura pode nos proporcionar.

Às vezes sinto falta de uma fonte sobre determinados temas, mas é assim mesmo. Ainda tenho muito para ler. Com o que tenho ainda irei fazer muitas descobertas e aprender muito. Graças a Deus por tudo isso! Que Ele me ajude a abençoar meu próximo com as bênçãos que Ele tem me proporcionado.

--


Uma boa opção para comprar livros é a Amazon, aproveitem a promoção da Black Friday: Cristianismo - Livros
Comprando por este link 👆 estão me ajudando.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Chegou o tempo de calar?


Para tudo há uma ocasião certa (Ec 3.1), até mesmo para calar (v. 7).

Nesse texto, destinado principalmente aos jovens, gostaria de destacar um momento ou fase em que precisamos nos calar. Essa fase vem quando começamos nossa jornada no conhecimento teológico, quando estamos fascinados com a beleza da doutrina cristã. E não falo de uma má doutrina, mas de uma sã doutrina, mesmo.

Quando somos movidos pela vaidade

Nessa etapa inicial de nosso crescimento do conhecimento das verdades bíblicas somos facilmente tentados pela vaidade  e frequentemente cedemos. Por que isso acontece? "O principal motivo disso é que em nós, seres humanos, verdade e amor raramente andam juntos" [1], afirmou Helmut Thielicke (1908-1986) em uma aula inaugural para seus alunos de teologia.

Eu sei, os outros não sabem. Eu conheço, os outros não conhecem. Esse é o pensamento que pode predominar em nosso íntimo, se insistirmos em ser treinados na verdade mas não no amor. Isso gerará um orgulho, um senso de superioridade, que nos fará olhar com desprezo para aqueles que não possuem o conhecimento que possuímos. Quando isso ocorre, começamos a nos envolver em discussões e debates simplesmente pelo prazer de derrotar o oponente e exibir nosso conhecimento "altamente superior". Talvez aquele com quem conversamos nem queira um debate, mas transformamos a conversa em um, porque estamos sendo movidos pela vaidade. E nossa à vaidade chamaremos encantadoramente de "zelo pela verdade de Deus".

Joshua Harris conta sobre o que viveu quando passou por essa fase:
...meu coração não estava se alimentando somente da verdade; ele também se alimentava de um senso de superioridade. Eu não tinha somente a verdade. Tinha a verdade que faltava a outras pessoas. Não estava somente olhando para o alto e contemplando a glória de Deus. Estava olhando para baixo com desprezo pelos outros. [2]
Sem percebermos, estamos agindo como o fariseu da parábola de Lucas 18.9-14, estamos orando semelhante a ele: sentimo-nos melhores por ser e possuir o que o outro não é e nem possui. Talvez nossa oração soasse como algo parecido com: "Graças te dou porque não sou ignorante como os outros homens, pois eles não conhecem os credos, os catecismos... nem mesmo sabem usar as ferramentas hermenêuticas. Muitos deles vivem apenas de assistir pregações rasas de seus pastores despreparados. Porém tu me agraciaste com o melhor da teologia e me livraste das falsas ideias que muitos desses hereges têm abraçado....".

Thielicke aponta a gravidade dessa atitude ao nomeá-la como uma doença espiritual  a patologia dos teólogos  que pode atingir não apenas os jovens teólogos, mas até mesmo aqueles que já foram ordenados pastores [3]. É muito grave porque o amor está ausente, quando sabemos que a verdade teológica envolve o amor de Deus. E o amor contraria o orgulho, contraria a atitude de possuir, pois o amor é altruísta, o amor abre mão, o amor dá.

Se formos acometidos pela patologia dos teólogos, é prudente calarmos. Ao falar, vamos ferir; ao ganhar a discussão, vamos perder o nosso próximo. "Como porta-vozes de Cristo, nosso objetivo é atingir o coração", disse Dallas Willard [4]. Se o nosso objetivo é apenas ganhar a discussão, não ganharemos o coração. Não estaremos cumprindo nosso objetivo como porta-vozes do Senhor Jesus.

Esse calar não seria simplesmente parar de falar de Cristo ou parar de evangelizar. Não é isso. Esse calar que proponho significa reconhecer que podemos não estar prontos para entrar em determinadas discussões. Significa também reconhecer que há discussões que não valem a pena serem iniciadas. Calar-se pode ser até mesmo deixar de usar conceitos e termos teológicos quando eles não são necessários. 

Entretanto, calar-se não é suficiente: é necessário ser tratado. Seguir as prescrições do Senhor resultará em um coração que transborda seu amor e humildade. Harris conta que seu tratamento não foi fácil:
...Deus corrigiu minha atitude pacientemente. Hebreus 12.5-11 diz que Deus, nosso Pai, nos disciplina porque nos ama. Ele envia circunstâncias, até mesmo a dor à nossa vida para tirar de nossas mãos "tudo que nos impede de prosseguir" e o "pecado que nos assedia" (Hb 12.1). Eu era arrogante e me sentia superior. Achava que minha verdade e minhas práticas eram melhores do que as de outras pessoas. E Deus usou algumas circunstâncias dolorosas para me humilhar. Ele me rebaixou vários níveis em minha própria avaliação.
Sabe de uma coisa? Ser humilhado dessa maneira foi a melhor coisa que me aconteceu. [5]
Não foi fácil, mas valeu a pena. Ele continua:
Hoje tenho novas formas de ver a graça em outras denominações e ministérios. Posso aprender mais facilmente com outras pessoas, em vez de sentir a necessidade de ficar na defensiva, mostrando por que estou mais certo do que elas. E estou mais pronto para oferecer graça e compreensão àqueles que, assim como eu, ainda estão no caminho.
Quando tivermos sido tratados —  o pai sabe como lidar com cada filho , saberemos não apenas o momento de falar e calar, mas também como falar. Nossas palavras serão um reflexo de um coração amoroso e a humilde. Além disso, saberemos ouvir. Ouvir o outro e reconhecer que podemos aprender com ele. Não será uma fala fingida, nem fingiremos estar ouvindo.

Quando o crescimento espiritual não acompanha o intelectual

Grandes teólogos e líderes da igreja não lidaram com problemas teológicos e doutrinários levianamente. Eles "dedicaram enorme esforço espiritual a tais questões, e por trás disso tudo estão experiências espirituais concretas" [6]. Thielicke diz que "o estudo de Teologia muitas vezes produz crianças crescidas cujos órgãos internos ainda não acompanharam o crescimento externo. Isso é característico da adolescência" [7]. 

Thielicke quer dizer que aquilo que o jovem teólogo apreende intelectualmente sobre uma área de estudos muitas vezes não acompanha o seu crescimento espiritual nessa área. Em que isso implica? O jovem pode elaborar uma pregação impecável sobre Lutero, e ainda assim não ser capaz de conhecer aquilo que está pregando. Sua experiência é meramente conceitual. Ele tem uma percepção daquilo que Lutero adquiriu por experiência própria. Ele assume uma identificação ilegítima com Lutero ou qualquer outro teólogo. Há a ilusão de que o conhecimento intelectual consiste em experiência e fé genuínas.

Essa fase não se trata de uma doença espiritual, é apenas uma fase de crescimento. É preciso apenas esperar, amadurecer. Enquanto isso não acontece: silêncio. O conselho de Thielicke é o seguinte:
É um erro colocar à frente da igreja para ensinar alguém que acaba de entrar nesse estágio. Ele já passou da fase de inocência que, como todo jovem, deve ter vivido. Mas ainda não atingiu aquela maturidade em que será capaz de absorver em sua própria vida e reproduzir com a vitalidade de uma fé pessoal as coisas que compreende intelectualmente e que lhe são acessíveis pela reflexão. Precisamos ter paciência e esperar. Por essas razões, não permito sermões de jovens teólogos do primeiro semestre, embrulhados em suas togas como em fraldas. É preciso saber ficar calado. No período formativo na vida do estudante de Teologia ele também não prega. [8]
Conclusão

Quando precisamos nos calar, nem sempre é fácil enxergar isso. Para percebermos essas ocasiões, em primeiro lugar, eu diria que a autoanálise é importante: chegar ao fim do dia e perguntar a si mesmo se suas palavras foram movidas por amor e compaixão; questionar a si mesmo se sua experiência espiritual acompanha a intelectual. 

Em segundo lugar, não pare na autoanálise. Nós, igreja, somos um corpo com muitos membros. Acompanhe cristãos mais maduros e peça para que eles lhe ajudem a enxergar como tem sido suas atitudes, se elas têm sido reflexo de um coração humilde. Peça para que te ajudem a experimentar aquilo você apenas entende com o intelecto.

O tempo de calar poderá parecer incômodo, muitas vezes, mas ele passa, pois chegará o tempo de falar.

Referências

[1] THIELICKE, Helmut. Recomendações aos jovens teólogos e pastores. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 33.

[2] HARRIS, Joshua. Ortodoxia Humilde. São Paulo: Vida Nova, 2013. p. 66.

[3] THIELICKE, Helmut. op. cit., p. 35.

[4] WILLARD, Dallas. Vivendo na presença de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2016.

[5] HARRIS, Joshua. op. cit., p. 67

[6] THIELICKE, Helmut. op. cit., p. 24.

[7] Ibdem, p. 26.

[8] Ibdem, p. 27.